Elevidys é uma terapia gênica recentemente aprovada para uso comercial pelo FDA (do inglês, Food and Drug Administration, agência regulatória dos Estados Unidos) para meninos com Distrofia Muscular de Duchenne (DMD) de 4 anos ou mais que ainda andam.
A sua eficácia ainda está sob investigação para meninos que não andam, mas o tratamento ainda experimental está aprovado de forma acelerada pelo FDA, pois a instituição considera que as premissas do tratamento indicam um possível benefício.
A DMD é causada pela ausência total da proteína distrofina nos músculos destes pacientes. Uma das dificuldades técnicas de terapias gênicas para esta doença é que o gene da distrofina é muito grande, com muitas possibilidades de mutações diferentes. A proteína faltante – distrofina – também é muito grande e de difícil reposição. A base da terapia com o Elevidys é introduzir uma proteína pequena, porém funcional, que foi chamada pelos seus idealizadores de microdistrofina.
Vale salientar alguns pontos com relação aos efeitos clínicos observados no desenvolvimento do Elevidys. Os pacientes apresentaram microdistrofina nos músculos, mas não tiveram melhoria estatística na pontuação do teste que avalia a função motora dos que andam, o North Star Ambulatory Assessment (NSAA), comparados aos pacientes que tomaram placebo. No entanto, após 52 semanas da administração da terapia gênica, houveram melhorias discretas em testes de levantar do chão (redução de 0,64 segundo), andar ou correr por 10 metros (redução de 0,42 segundo), subir 4 degraus (redução de 0,36 segundo) e redução dos níveis de creatina quinase no sangue de 5138,52U/L, apesar de esses testes terem sido feitos em um estudo clínico aberto, em que tanto o investigador quanto o paciente sabem que a medicação ou o placebo está sendo administrado.
Conforme exibido no programa Fantástico da TV Globo em 09/07/2024, trata-se de uma terapia extremamente inacessível para a maioria dos pacientes, com um custo estimado em R$ 17 milhões. É importante salientar que a terapia proposta não será eficaz para todos os pacientes e apresenta efeitos colaterais consideráveis.
Conforme informações presentes no site dos proponentes desta terapia (https://www.elevidys.com/), citamos algumas contraindicações e efeitos colaterais:
- Indivíduos com qualquer deleção nos exons 8 e 9 no gene DMD, não devem receber Elevidys.
- Elevidys pode aumentar certos níveis de enzimas hepáticas e causar lesões hepáticas graves e agudas.
- Pacientes com mutações nos exons 1 a 17 e/ou nos exons 59 a 71, podem estar em risco de uma reação grave de miosite imunomediada (uma resposta imune que afeta os músculos).
- Miocardite (inflamação do coração) alguns dias após a infusão de Elevidys já foi relatada.
- Reações alérgicas graves. O tratamento com Elevidys não é recomendado para pacientes que apresentam níveis elevados de anticorpos contra o vetor viral utilizado para administrar Elevidys.
- A imunossupressão pelo uso elevado de corticoisteróides após a administração de Elevidys pode levar a complicações consideráveis de infecções como resfriados, gripes, gastroenterites, otites, bronquiolites, etc.
O Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco apoiará qualquer terapia que se mostre segura e eficaz para o tratamento das distrofias musculares. Entendemos que, neste momento, o Elevidys é uma terapia experimental com muitos efeitos colaterais graves, sendo contraindicado para muitos pacientes. Além disso, o custo inacessível apresentado pela indústria farmacêutica o torna impraticável.
Estamos acompanhando de perto os resultados das terapias propostas e continuamos pesquisando e apoiando terapias eficazes que tragam benefícios para todos os nossos pacientes e que sejam acessíveis a todos.
[Atualização – julho de 2025]
Novos dados reforçam o nosso posicionamento de cautela em relação ao uso de Elevidys. Desde o início de 2025, três mortes foram confirmadas em pacientes que receberam essa terapia gênica, todas associadas à falência hepática aguda. Dois desses casos ocorreram em pacientes com DMD que não andavam, e outro em um paciente com outra forma de distrofia muscular (LGMD) que participou de um estudo clínico com um produto baseado na mesma tecnologia viral (AAVrh74) usada pelo Elevidys.
Esses eventos levaram a ações regulatórias significativas:
- A FDA (agência dos EUA) determinou a suspensão de todos os estudos clínicos envolvendo essa plataforma, revogou o selo de tecnologia promissora e solicitou que a empresa parasse a distribuição comercial do produto nos EUA — o que inicialmente foi recusado pela Sarepta.
- A própria Sarepta suspendeu voluntariamente o uso de Elevidys em pacientes que não andam e interrompeu um estudo clínico internacional em andamento (ENVISION).
- A Anvisa, no Brasil, decidiu suspender temporariamente a comercialização, importação e uso do Elevidys, mesmo sem casos fatais registrados no país, por se tratar de uma medida preventiva diante da gravidade dos eventos adversos e incertezas sobre segurança.
É importante destacar que, até o momento, nenhum dado científico publicado demonstra benefício claro ou cura para os pacientes tratados com Elevidys. Apesar de alguns sinais laboratoriais e melhorias muito discretas em testes físicos, os estudos clínicos não atingiram seus objetivos principais e os efeitos colaterais graves, especialmente hepáticos, tornaram-se uma preocupação central em nosso posicionamento.
Apesar dos desafios atuais, o campo das terapias genéticas continua avançando. Novas abordagens, como o uso de oligonucleotídeos antisense (ASOs), têm demonstrado potencial para tratar doenças genéticas de forma mais precisa e segura. Um exemplo já aprovado e em uso clínico é o Spinraza, indicado para pacientes com Atrofia Muscular Espinhal (SMA), que tem mostrado melhora significativa na função motora e aumento na sobrevida de pacientes, especialmente quando administrado precocemente. Essas terapias atuam diretamente sobre o RNA mensageiro, corrigindo ou bloqueando a produção de proteínas defeituosas. O Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco permanece atento a essas inovações e tem trabalhado no desenvolvimento de alternativas terapêuticas eficazes, acessíveis e seguras para todos.


